Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim
(...)
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
(...)
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio!
Sempre ao ler os verso de Fernando Pessoa sinto como se eles traduzissem-me. Cada palavra parece que vem do que me é essencial. São retratos em letras do que sou...
A sensação de “palhaço sem riso”, de “bobo com grande fato de outro” me acompanhe constantemente, sobretudo neste período de natal, em que as pessoas resolvem ser “agradáveis, receptivas e generosas”. Fico a pensar o que causa tanta euforia nesses seres que passam todo o ano sendo arrogantes e detestáveis. Será a orgia das compras e a carinha ridícula do Papai Noel ou será que as luzes natalinas afetam-lhe os neurônios trazendo-lhes a generosidade tão raramente sentida e jamais compreendida?
Dá-me náuseas todas essas manifestações de carinhos medíocres, de risos amarelos e abraços frouxos sem calor.
É absurdo tudo isso.
O que mais me causa espanto é a estranheza dessas criaturas às pessoas que não se prendem a regras moralistas de uma sociedade hipócrita que prega a inversão dos valores. Como canta Nando reis, “o que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou.”
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
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